
Por que votar em Lula?
Hoje recebi um e-mail de um amigo sobre os rumos que a política vem tomando nessa reta final da campanha eleitoral. Lá pelo final ele pergunta como é possível que metade dos eleitores desse país ainda pretenda votar em Lula depois de todos esses escândalos envolvendo o PT. Eu, que todos vocês conhecem – uns mais outros menos – fiquei com preguiça de enumerar as razões pelas quais eu continuo a achar que não há candidato melhor do que o sapo barbudo. Defender o PT e seus líderes hoje é uma profissão de fé que eu não tenho mais ânimo de exercer. Prefiro esperar que a poeira baixe e a verdade apareça. E esta espera é angustiante. Você que sempre foi petista roxo me entende muito bem. Mas esta única pergunta – por que a maioria do povo brasileiro vai votar em Lula – sinto-me no dever cidadão de responder, por tudo o que tenho visto e ouvido nesses três meses em que tenho viajado por este Rio Grande do Norte adentro.
Comunidade de Riacho Fechado, São Tomé, região do Trairi, terra de seu Alcino Moreira. Ele tem 84 anos, 82 deles vividos ali, trabalhando a terra, do mesmo jeito que seu pai e seu avô – literalmente. Até 2003 ele e seus vizinhos não tinham luz elétrica; banho de verdade, só aos domingos para ir à missa no povoado mais próximo; dinheiro vivo em casa, só quando um dos filhos que se mudou para a capital levava algum. Seu Alcino trabalhou a vida inteira e nunca teve uma renda mensal. Ainda assim, ele se considera abençoado por ver que seus filhos terão uma vida melhor do que a sua. Primeiro foi a energia elétrica que chegou e tirou a família daquela escuridão sem fim; depois a cisterna que, como ele diz num sorriso aberto e emocionado, nunca secou; no ano passado foi o financiamento do Programa Nacional de Agricultura Familiar. A comunidade se organizou, aumentou a área de plantio, está colhendo e vendendo seus produtos diretamente para as creches e escolas da cidade, sem atravessadores, através do Compra Direta. A família de seu Alcindo sabe por que vai votar em Lula.
Currais Novos, região do Seridó. Lá, dona Joana D’Arc da Silva limpa as tilápias que pegou no açude. Há dois anos que ela e dezenas de outros pequenos da Serra de Santana tiram três toneladas de pescado do criadouro instalado também graças aos recursos do Pronaf. Toda a produção também já tem freguesia certa na cidade. Isto significa proteína de qualidade na mesa das pessoas e uma renda mensal que dá para pagar a conta de luz, as pretações do financiamento e ainda fazer planos para o futuro. Dona Joana sabe por que vai votar em Lula.
Também em Currais Novos, os agricultores de Povoado Cruz também querem a reeleição do presidente. Até dois anos atrás, metade das frutas produzidas na região estragava por falta de condições de escoar a produção. Não tinha estrada e ninguém ali tinha como colocar os produtos nas feiras e mercados. Só restava entregar aos atravessadores por qualquer preço. Graças ao Pronaf, eles se uniram e montaram uma fabriqueta de polpa. Plantaram mangueiras nas ruas, até na pracinha da igreja. Ali e em todas as propriedades da comunidade fruta nenhuma apodrece mais no pé. Todas são transformadas em polpas congeladas e doces em compota. O produtor que antes ganhava de dez a quinze reais por caixa de frutas entregues ao atravessador hoje recebe 85 reais assim que entrega a produção na fábrica de polpa, que já precisa ser ampliada para atender à demanda.
Eu poderia passar a noite inteira descrevendo projetos que eu vi em funcionamento em lugares que NUNCA haviam sido beneficiados com nenhuma ação do governo federal. Nas minhas viagens pelo interior tenho visto o brilho nos olhos de homens e mulheres simples que muitas vezes não conseguem conter as lágrimas quando falam das suas conquistas – a casinha para morar, energia para ver televisão e fazer uma vitamina no liquidificador novo - coisas que parecem insignificantes para quem sempre viveu com um certo conforto nos grandes centros mas que pareciam inatingíveis para esse povo humilde. Tive a alegria de saber que muitos pais já estão chamando os filhos que lutam para sobreviver na cidade para voltarem e ajudarem a família no campo. Jovens como Cristina, que se orgulha de ter, sozinha, conseguido a melhor safra no seu assentamento em Serra Caiada – assentamento, diga-se de passagem, com água, luz e incentivo à produção.
A tal “transferência de renda” para a qual as elites torcem o nariz funciona assim: de um lado, as famílias recebem o Bolsa Família para manterem os filhos nas escolas; para garantirem a merenda escolar, as escolas compram frutas, verduras, legumes, carne, leite e seus derivados dos agricultores da região que, por sua vez, tiveram a produção financiada pelo Pronaf. Vendendo direto, sem intermediários, esses produtos saem mais barato para a prefeitura e o comércio local. Os agricultores, por sua vez, recebem muito mais do que receberiam se vendessem seus produtos para o atravessador. Com esse dinheiro ele pode comprar no comércio da cidade aquilo que não produz. O comércio se desenvolve e emprega a mão-de-obra que vivia ociosa na cidade e que acabava migrando para a capital ou para o sul maravilha. Este é o melhor exemplo de como o capitalismo pode melhorar a vida das pessoas se não ele não for selvagem. E está acontecendo, gente. Eu vi.
Obviamente amigos, estamos no início de um processo que precisa continuar. Lembro-me que a meta de vários governos anteriores era de ter um salário mínimo de cem dólares; hoje, ele é de quase duzentos dólares e compra quase duas cestas básicas – o dobro do que comprava há quatro anos. De acordo com o IBGE, mais de seis milhões de brasileiros que antes estavam nas classes D e E subiram para a classe média. O caminho para um país com menos desigualdade é governar para a maioria. No Brasil a maioria é pobre. Lula cumpriu o que prometera na Carta ao Povo Brasileiro e governou para essa maioria, diminuindo a pobreza, o que é bom para todos. Conseguir os resultados que ele conseguiu, de maneira consolidada e de forma sustentável deve ser muito difícil, porque se fosse fácil outros já teriam feito.
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O engraçado é que Lula ganhou nota 5 de uma revista porque prometeu gerar dez milhões de emprego com carteira assinada em quatro anos e gerou 4,8 milhões em três anos e meio. Por este raciocínio canhestro, como não se comprometeu com nada, Fernando Henrique Cardoso ganharia nota maior apesar de ter gerado seis vezes menos postos de trabalho em seus oito anos de administração. Aliás, em todos os indicadores sociais e econômicos o atual governo bate o anterior. Por isso tanta gente vai votar no Lula e eu também.
Em relação às suspeitas que rondam o Planalto, prefiro esperar que os holofotes da sucessão presidencial se apaguem e que os processos sejam julgados e os condenados punidos. Até lá, acho mais justo dar o benefício da dúvida a quem tem o mínimo de compromisso com seus eleitores do que a outros que passaram tanto tempo no poder e emperraram o desenvolvimento do País. Gente que pelos atos do passado, por tudo que omitiu, tudo o que engavetou, não tem o menor moral para atacar o presidente.
Marilia Estevão.





